O Dia Internacional da Diversidade Biológica

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A definição mais usual de Diversidade Biológica, ou Biodiversidade, inclui a variação existente nos diferentes níveis de organização biológica do planeta, desde as moléculas e genes, passando pelo nível de espécies e famílias, e chegando aos ecossistemas e biomas que as comunidades de espécies formam; ou seja, é toda a vida na Terra. Desde que foi cunhado, o termo Biodiversidade vem sendo amplamente usado e divulgado por diversas instituições e cientistas; o entomologista Edward Wilson, por exemplo, autoridade no assunto, usou o nome em um de seus principais e mais conhecidos livros, que se tornou referência básica em cursos de graduação e pós graduação no Brasil. A palavra “Biodiversidade” resulta de uma contração da expressão “Diversidade Biológica”, (do inglês Biodiversity = Biological + Diversity), criada pelo cientista Thomas Lovejoy, no início da década de 1980. Tem relação direta com  o nascimento da Biologia da Conservação, disciplina integradora criada a partir da constatação de cientistas e ambientalistas que, nos últimos milhares de anos, a Terra vem perdendo espécies numa taxa muito superior às taxas históricas conhecidas, num processo conhecido como “Sexta Extinção”. Diversas evidências demonstram o papel da espécie humana nesse processo, conhecido como “crise da biodiversidade”.

Foto: João Farkas

A biodiversidade não está distribuída igualmente na Terra, sendo maior nos trópicos e decrescente em direção aos polos, num gradiente latitudinal causado por fatores históricos, geológicos, climáticos e ecológicos, amplamente comprovados cientificamente para quase todos os grupos de organismos vivos conhecidos. Na faixa intertropical localizam-se os 17 países chamados de “megadiversos”, que, em conjunto,  reúnem aproximadamente 70% de toda a riqueza biológica conhecida em somente cerca de 10% do território terrestre. Compõem esse grupo África do Sul, Austrália, Brasil, China, Colômbia, Equador, Estados Unidos da América, Filipinas, Índia, Indonésia, Madagascar, Malásia, México, Papua Nova Guiné, Peru, República Democrática do Congo e Venezuela.

O Brasil destaca-se no cenário mundial da biodiversidade, pois abriga em seu território cerca de um terço de todas as florestas tropicais do planeta e o maior sistema fluvial do mundo, além de reunir cerca de 20% do total das espécies do planeta, distribuídas em seus biomas terrestres e ecossistemas marinhos, com dois hotspots de biodiversidade – Mata Atlântica e Cerrado, e três áreas de wilderness – Caatinga, Pantanal e Amazônia. Hotspots são áreas do planeta com altos níveis de riqueza e endemismo de espécies, porem sob forte ameaça, enquanto Wilderness são as grandes regiões naturais do planeta, que ainda mantém a maior parte de suas áreas ainda em condições relativamente conservadas.

O reconhecimento da importância da biodiversidade para a manutenção da vida humana na Terra culminou com a assinatura, por cerca de 160 países, em 1992, da Convenção sobre a Diversidade Biológica – CDB, o primeiro tratado intergovernamental especificamente relacionado ao tema, voltado a assegurar a conservação, o uso sustentável e a repartição dos benefícios da biodiversidade. A CDB foi lançada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, no Rio de Janeiro, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e, desde então, diversos países têm empreendido esforços para reconhecer, valorizar e conservar a biodiversidade, fazendo o uso sustentável desse patrimônio e reconhecendo os direitos de propriedade do seu conhecimento.

Como um produto inacabado de milhões de anos de evolução biológica, a biodiversidade envolve processos dinâmicos, resultantes da interação entre as espécies e entre essas e seus meios, formando sistemas que fornecem serviços ambientais imprescindíveis para a vida na Terra, como a purificação do ar e a depuração da água, a moderação do clima, o controle de eventos extremos, como inundações e secas, além de proteção contra outros desastres ambientais. Fornece ainda alimento, fibras, madeira, biomassa, fármacos, matérias-primas diversas e energia, além de nutrientes para o solo e polinizadores para as culturas agrossilvopastoris. Os avanços na área de Biotecnologia trazem perspectivas promissoras do uso da biodiversidade, sendo a pesquisa científica fundamental nesse entendimento.

Foto: Guilherme Ambrósio

As principais ameaças à biodiversidade são a destruição e consequente fragmentação de hábitats, a poluição provocada pela ação humana, a introdução de espécies exóticas invasoras e a sobre exploração de espécies com interesse econômico. Soam-se a esses fatores um cenário de crescimento populacional exponencial e mudanças climáticas decorrentes das atividades antrópicas, que, em conjunto, potencializam essas ameaças e produzem efeitos em nível global. O enfrentamento desses temas, tão presentes em nosso dia a dia, requer a integração do conhecimento científico já produzido sobre o assunto aos planos, programas e políticas ambientais, tanto públicas como privadas, havendo, tanto em nível mundial, como nacional e regional, diversas frentes nesse sentido.

O Brasil, que já teve um papel protagonista no cenário da biodiversidade em nível mundial, já produziu cinco relatórios para a Convenção da Diversidade Biológica, o mais recente de 2016, com o status das diversas ações empreendidas pelo poder público e por organizações privadas brasileiras para atingimento dos objetivos definidos pela CDB. Em 2010, no Japão, foram definidas as 20 Metas de Aichi para conservação da biodiversidade, reunidas em cinco objetivos estratégicos, e 2020 é o ano final estabelecido nesse planejamento; faz-se necessário um grande esforço interinstitucional e intergovernamental para avaliar criticamente os planos, programas e ações previstos, buscando compreender os impactos dessas iniciativas na efetiva conservação da biodiversidade.

Ainda que a biodiversidade venha, cada vez mais, sendo reconhecida como um patrimônio de valor inestimável, coletivo, e que deve ser conservado, as ações humanas continuam colocando-a em risco. Caso tenhamos o desejo que as gerações futuras conheçam e valorizem essa biodiversidade, ações de sensibilização, mobilização e educação são imprescindíveis. Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas – ONU – criou do Dia Internacional da Diversidade Biológica – BID, no dia 22 de maio, data que, em 1992, foi aprovado o texto final da Convenção da Diversidade Biológica, intitulado: “Nairobi Final Act of the Conference for the Adoption of the Agreed Text of the Convention on Biological Diversity”. Com a aprovação da CDB durante a Eco-92, a Assembleia Geral da ONU de 2000 adotou esse dia, para propor uma reflexão sobre como a espécie humana vem tratando a biodiversidade e quais as formas de buscar soluções para os conflitos que envolvem o uso e a conservação dos recursos naturais. Estima-se que existam atualmente um milhão de espécies sob risco de extinção, além das milhares de espécies que a ação humana extinguiu nos últimos milhares de anos. 

Foto: Frico Guimarães

Em 2020, além de estarmos em um cenário de pandemia, o que já traz inúmeros desafios, estamos frente a uma taxa de perda de espécies e de hábitats como nunca registrada anteriormente. O ritmo de conversão das florestas e savanas tropicais em áreas de produção convencional, a crescente urbanização, o aumento da atividade industrial e o uso massivo de energia têm colocado em risco a biodiversidade do planeta, e, justamente nesse ano, em que deveríamos avaliar os avanços obtidos a partir da definição das Metas de Aichi, estamos mais preocupados com mudanças que alguns grupos de interesse da sociedade querem fazer no arcabouço jurídico e institucional da área ambiental no Brasil. Isso não só coloca em risco os esforços já empreendidos para a conservação da maior biodiversidade conhecida no mundo, como também a credibilidade de um país, que, pela sua importância no cenário internacional, deveria estar liderando os esforços mundiais de conservação da diversidade biológica.

O tema desse ano do Dia Internacional da Diversidade Biológica é “Nossas soluções estão na natureza”. Ele nos leva a rever e reavaliar a forma como nos relacionamos com o mundo natural, pois, apesar de todos os avanços tecnológicos, a humanidade ainda é completamente dependente dos ecossistemas naturais, que fornecem água, alimentos, remédios, roupas, combustível, abrigo e energia. Dessa forma, espera-se que a humanidade se solidarize com esse tema, e, sobretudo, que busque, de forma conjunta e sinérgica, os caminhos para construirmos um futuro melhor para a humanidade.

Foto: Guilherme Ambrósio

Texto: Isamara Carvalho Ferreira e Sandro Menezes Silva
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais – FCBA
Universidade Federal de Grande Dourados – UFGD

Referências consultadas

BARBIERI, E. Biodiversidade: a variedade de vida no planeta Terra. Apta. São Paulo, p1-19, 2010. Disponível em https://www.pesca.sp.gov.br/biodiversidade.pdf

BONONI, V. L. R. Biodiversidade. Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Instituto de Botânica – São Paulo: SMA, 112 p., 2010. Disponível em https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/publicacoes/2011/10/biodiversidade/

FRANCO, J. L. A. O conceito de biodiversidade e a história da Biologia da Conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História (São Paulo), v. 32, n. 2, p. 21-48, 2013. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-90742013000200003&script=sci_arttext

GANEM, R. S. Conservação da biodiversidade: legislação e políticas públicas. 2011. Disponível em https://livroaberto.ibict.br/bitstream/1/708/1/conservacao_biodiversidade.pdf

JOLY, C. A. et al. Diagnóstico da pesquisa em biodiversidade no Brasil. Revista USP, n. 89, p. 114-133, 2011. Disponível em http://rusp.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-99892011000200009&lng=pt&nrm=isso

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE – MMA. Biodiversidade. Secretaria de Biodiversidade (SBio). Disponível em: <https://www.mma.gov.br/biodiversidade.html>. Acesso em 19 de maio de 2020.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – ONU. International Day for Biological Diversity 22 May. Disponível em: < https://www.un.org/en/observances/biological-diversity-day>. Acesso em 19 de maio de 2020.

WILSON, E. A. Biodiversity. National Academy of Sciences. Washington, DC: The National Academies Press. 1988. https://doi.org/10.17226/989. Disponível em https://www.nap.edu/catalog/989/biodiversity

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