Dia Mundial do Meio Ambiente

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A história da espécie humana, o Homo sapiens, é marcada por mudanças na forma de organização das relações entre os indivíduos da espécie, e entre esses e o ambiente em que vivem; como qualquer outra espécie na Terra, ao longo dos seus quase 200 mil anos de existência, buscou na natureza os recursos necessários para a sua sobrevivência e isso contribuiu substancialmente para moldar os seus caminhos evolutivos. De caçador-coletor ao homem-robô, a história da humanidade teve alguns marcos importantes, com grandes mudanças na intensidade com que passou a utilizar os recursos naturais, na relação com a natureza, a começar pela migração da África para outras partes do mundo, há cerca de 70 mil anos, passando pelo desenvolvimento da agricultura, há cerca de 12 mil anos, e a Revolução Industrial, no Séc. XVIII e, mais recentemente, chegando à Revolução Tecnológica, que tem como referência o surgimento da rede mundial de computadores e a disseminação do uso de computadores pessoais.

A expansão da espécie humana pelo planeta foi marcada por descobertas de novos territórios e espécies e, consequentemente o estabelecimento de novos usos dos recursos que a natureza oferece, diversificando o elenco de plantas e animais para os quais foi atribuído algum caráter utilitário. Das mais de 200 mil plantas conhecidas, por exemplo, estima-se que o homem tenha feito uso de cerca de 20 mil espécies, das quais cultiva ou cultivou cerca de 2 mil, comercializa cerca de 200 espécies, e dessas, menos de 20 espécies são responsáveis pela movimentação de mais de 70% da economia mundial. Essa comparação dá uma ideia da proporção que o conhecimento do uso das espécies, não só de plantas, mas também de animais, poderia impulsionar a economia mundial em bases mais sustentáveis, com a devida valorização da biodiversidade.

Foto: Guilherme Ambrosio

Além do caráter utilitário atribuído pelo homem a diversas espécies animais e vegetais, a natureza ainda proporciona à espécie humana os benefícios dos serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos. Tratam-se de benefícios obtidos da natureza que vão além somente dos serviços de provisão, alimentos, matéria-prima para diversas finalidades, fibras e fármacos, por exemplo, incluindo os serviços reguladores, como a purificação do ar, a regulação do clima e do ciclo da água, o controle de enchentes e de erosões e o controle de pragas e doenças, os serviços culturais, ligados aos aspectos recreacionais, educacionais, estéticos e espirituais do uso da natureza e, não menos importante, os serviços de suporte, responsáveis pela ciclagem de nutrientes, pela produtividade, pela formação de solos e pela polinização das plantas. Somente para dar um exemplo da importância dos serviços ambientais, são conhecidas cerca de 20.000 espécies de polinizadores, entre insetos (abelhas, vespas, moscas, borboletas e besouros) e vertebrados (pássaros e morcegos), a maioria selvagem. A produção de alimentos para a espécie humana depende fortemente desses polinizadores, pois estima-se que mais de 75% das espécies vegetais alimentícias, principalmente hortaliças e frutas, dependem desses animais para a produção de frutos e sementes.

Os principais problemas ambientais decorrentes das atividades antrópicas que o planeta enfrenta estão relacionados às mudanças climáticas, à perda da biodiversidade, a depleção da camada de ozônio, a poluição dos rios,  mares e oceanos, o uso inadequado das águas superficiais e profundas e o emprego excessivo de agroquímicos, que têm efeito global e podem, ainda que não saibamos exatamente a dimensão que cada um pode atingir e afetar a vida da espécie humana na Terra. Desertificação, desaparecimento e alterações dos cursos de rios, esgotamento dos reservatórios de água doce, diminuição da camada de gelo nos polos, supressão de florestas e savanas e formação de grandes núcleos urbanos são processos que têm afetado a Terra como um todo, com consequências que já podem ser percebidas em larga escala. Tais alterações são de tal magnitude que cientistas que acompanham os seus reflexos sobre o planeta já propuseram uma nova era geológica para a atualidade, o Antropoceno. Na verdade, o ambiente humano é uma propriedade emergente da relação entre o homem e a natureza que o cerca, no qual o natural e o cultural unem-se para formar um entendimento conjunto do papel da espécie humana na Terra.

Foto: Silas Ismael

O Dia Mundial do Meio Ambiente foi criado em 1972, no dia 5 de junho, em alusão à data de início da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, sediada em Estocolmo, na Suécia, nesse mesmo ano. Realizado anualmente desde 1974, o Dia Mundial do Meio Ambiente é o principal meio que a Organização das Nações Unidas escolheu para conscientizar a população sobre a importância do tema, e, com isso, promover ações que busquem soluções para os principais problemas ambientais da humanidade.  Além disso, esse dia tem assumido importância cada vez maior como uma forma de promover o avanço na dimensão ambiental dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Milênio. Mais de 150 países promovem essa data, envolvendo empresas, organizações do terceiro setor, comunidades, instituições de governo e celebridades nas causas ambientais.

Em 2020, a Colômbia sediará o Dia Mundial do Meio Ambiente, com o foco na biodiversidade. A escolha desse tema deve-se ao triste fato de termos atingido um milhão de espécies de plantas e animais ameaçados de extinção. Além disso, esse ano é chave para a biodiversidade, pois o período entre 2021 e 2030 será a Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas,  com o objetivo de restaurar ecossistemas degradados e destruídos, buscando combater a crise climática e melhorar a segurança alimentar, o suprimento de água e a biodiversidade. Vale destacar que a Colômbia é um dos 17 países megadiversos do mundo, abrigando perto de 10% da biodiversidade do planeta em um território pouco inferior ao do estado do Pará; ocupa o primeiro lugar em diversidade de pássaros e de orquídeas, o segundo em espécies de plantas, borboletas, peixes de água doce e anfíbios, com uma diversidade de ambientes que vão desde os recifes de corais e manguezais na zona costeira, passa por extensas áreas de florestas tropicais e chegam à parte alta da cordilheira andina, com uma quantidade expressiva de espécies endêmicas.

A natureza fornece à espécie humana os recursos necessários para sua sobrevivência, mas também para todas as demais espécies na Terra. Na trajetória humana no planeta, a busca pelo desenvolvimento e os avanços tecnológicos têm consumido mais recursos e produzido mais resíduos do que o planeta pode suportar. Isso tem gerado não só perda de biodiversidade, mas também perda na qualidade de vida de várias populações humanas. Os problemas ambientais causados pela espécie humana não serão resolvidos somente pela tecnologia; serão necessárias profundas mudanças no comportamento humano, devendo a relação entre o homem e natureza ser reconsiderada. Que nesse Dia do Meio Ambiente, em meio à maior pandemia dos últimos tempos, tenhamos tempo e serenidade para repensar nossas atitudes em relação às necessidades de consumo e os impactos, diretos e indiretos, que têm nos ambientes naturais, e, na medida do possível, busquemos formas de garantir um planeta saudável para as futuras gerações de todas as espécies com as quais dividimos nossa “casa”.

Isamara Carvalho Ferreira e Sandro Menezes Silva
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais – FCBA
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD

Foto: Arquivo Documenta Pantanal

Referências consultadas

DUODU, F. Global Environmental Problems and Politics. An analysis on why global environmental problems are difficult to address through political solutions. Stockholm University: Political Science Department, 12 p., 2018. Disponível em:  https://www.researchgate.net/publication/331165206_Global_Environmental_Problems_and_Politics_An_analysis_on_why_global_environmental_problems_are_difficult_to_address_through_political_solutions

MENDES, A. S. V. A relação homem-natureza através dos tempos: a necessidade da visão transdisciplinar como fundamento do direito ambiental. Conpedi, v. 12, 2014. Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/conpedi/manaus/arquivos/anais/fortaleza/3413.pdf

UNEP – UM Environment Programme. Colômbia sediará o Dia Mundial do Meio Ambiente 2020 sobre biodiversidade., 2019. Disponível em: https://www.unenvironment.org/pt-br/noticias-e-reportagens/press-release/colombia-sediara-o-dia-mundial-do-meio-ambiente-2020-sobre

WWF. Relatório Planeta Vivo – 2018: Uma ambição maior. Grooten, M. and Almond, R.E.A. (Eds). WWF, Gland, Suíça. 2018. Disponível em: https://d3nehc6yl9qzo4.cloudfront.net/downloads/lpr_2018_summary_portugues_digital.pdf

ZULAUF, W. E. O meio ambiente e o futuro. Estudos avançados, v. 14, n. 39, p. 85-100, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ea/v14n39/v14a39a09.pdf

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