O Arroz Nativo do Pantanal: Um Patrimônio em Declínio?

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Isamara Carvalho Ferreira
Sandro Menezes Silva
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais – FCBA

O Pantanal abriga centenas de espécies vegetais úteis para a espécie humana, com diversos empregos e formas de uso, desde plantas com uso místico e espiritual, usadas em benzeduras e rituais religiosos, até aquelas usadas como alimentos, sejam frutas, grãos ou partes dos caules e folhas. As plantas silvestres comestíveis podem contribuir para a segurança alimentar das comunidades mais isoladas, além de auxiliarem na conservação ambiental por meio do uso sustentável desses recursos nativos, como alternativa à conversão de áreas naturais para implantação de monoculturas e/ou pastagens exóticas. Estima-se que existam cerca de 300 espécies de plantas nativas com potencial alimentício no Mato Grosso do Sul, sendo mais de 100 dessas ocorrentes no Pantanal. No entanto, se consideramos os diversos usos conhecidos para plantas no Pantanal, além do alimentício, esse número deve passar de 500 espécies.

A família Poaceae é uma das principais famílias vegetais para a espécie humana, do ponto de vista econômico, pois a  alimentação da maior parte da população mundial é baseada em plantas dessa família, como por exemplo o trigo, o milho, a aveia, a cana-de- açúcar, e o arroz, bastante conhecido pelas duas espécies que são mais cultivadas como alimentícias – Oryza sativa L. e Oryza glaberrima Steud. O gênero Oryza conta com pouco mais de 20 espécies silvestres conhecidas, ocorrentes nas zonas tropicais e subtropicais da Ásia, África, Austrália e América; nesse continente, ocorrem desde o México até a Argentina, sempre em ambientes aquáticos. No Pantanal brasileiro foi constatada a ocorrência de duas espécies nativas de arroz, que popularmente são conhecidas como arroz-do-campo, arroz-do-brejo, arroz selvagem ou “machacho”, esse no idioma Guató: Oryza rufipogon Griff. (nome científico atualmente válido para Oryza glumipatula, citada em várias publicações)  e Oryza latifolia Desv.

As duas espécies de arroz nativos do Pantanal são plantas aquáticas, com folhas e hastes florais emersas, que ocorrem em grandes manchas que podem chegar a milhares de hectares, em várzeas e margens dos rios no Pantanal. Normalmente frutificam entre abril e junho, e, quando maduras, as sementes caem rapidamente, necessitando ser colhidas um pouco antes desse período. O amadurecimento ocorre entre os meses de maio e junho, quando normalmente o rio Paraguai tem níveis de água mais altos. Essas espécies fornecem ainda grandes quantidades de forragem bem aceitas pelos animais. Análises químicas dos grãos de arroz nativo mostram que podem ter quase 10% de proteínas, baixa quantidade de lipídios (em torno de 2%) e cerca de 10% de umidade, além de ser uma excelente fonte de fibras. As espécies de arroz nativo do Pantanal foram muito utilizadas por povos indígenas, principalmente os Guató, que coletavam o arroz em bacias e banhados da região, dentro de suas canoas; conta-se que na época de produção dos frutos, bastava colher os ramos férteis e bater dentro das canoas, para enchê-las de grãos em pouco tempo.

É importante despertar o interesse das pessoas pela utilização das espécies nativas de arroz do Pantanal, ainda são pouco estudadas, mas que podem se tornar produtos de mercado, com grande valor agregado, para consumo direto ou em preparações com sua farinha, servindo como fonte alternativa de alimento ou renda para a população ribeirinha, que retiram seu sustento basicamente da pesca e da coleta de iscas para venda.

Embora haja um grande potencial de uso dos grãos dessas espécies como alimento, existem estudos mostrando que os grãos selvagens de arroz nativo abrigam diversas espécies de fungos, que podem atuar como patógenos para plantas de espécies de arroz cultivadas, ou então produzirem toxinas patogênicas que podem contaminar outros grãos, e, se consumidos nessa condição, a própria espécie humana. Outro fator que deve ser observado no aproveitamento dos grãos do arroz nativo, é o devido cuidado no manuseio das espigas durante a colheita, pois as palhas finas presentes nos grãos podem irritar olhos, narinas, boca e ouvidos, necessitando de proteção individual nesse trabalho, como luvas, máscaras e óculos.

Apesar da importância local e do valor etnobotânico das espécies de arroz nativo, elas correm risco de serem abandonadas, ou então de haver perda desse conhecimento tradicional, pois os povos indígenas da região, que detinham esse uso tradicional, já não praticam mais a coleta e o beneficiamento dessas espécies.

Saiba um pouco mais sobre as duas espécies de arroz nativo do Pantanal:

Oryza rufipogon Griff.
Essa espécie, cujo sinônimo científico é Oryza glumipatula Steud., pode ser encontrada nas Américas Central e do Sul, na Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Guiana Francesa, Guiana, Honduras, México, Panamá, Suriname e Venezuela. No Brasil ocorre nas regiões Norte, na bacia Amazônica, e no Centro-Oeste, na bacia do Alto Paraguai e em áreas inundáveis do Cerrado Goiano. Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, há relatos de populações indígenas que utilizavam essa espécie para a alimentação, mas por volta de 1550, a espécie mais conhecida e comercializada, Oryza sativa L., foi introduzida no país e passou a ser a principal espécie alimentícia do gênero até hoje.

Trata-se de uma espécie hidrófita, cujo ciclo de vida é influenciado pela variação do nível da água; suas sementes germinam no período de vazante, quando o sedimento fica exposto, e se desenvolvem como plantas terrestres, por cerca de dois meses, até que o período de inundação chegue.  Durante a cheia, as plantas crescem bastante e, depois de alguns meses, florescem; nesse tempo, os caules que estavam em contato com os sedimentos decompõe-se, e planta torna-se flutuante, sendo carregada pelas águas até encontrar algum local em que ancore e reinicie o ciclo terrestre, na medida em que a cheia termina.

Diferencia-se da outra espécie de arroz nativo do Pantanal, O. latifolia, pelos conjuntos de flores que se agrupam em inflorescências mais compactas, fechadas, semelhantes a uma vassoura, e pelos grãos mais claros, porém com as “ferpas” avermelhadas, como são chamadas as aristas pontiagudas das pequenas brácteas (folhas reduzidas e modificadas) que protegem os grãos. Suas folhas são mais estreitas, quando comparada a outra espécie congênere, o que permite a diferenciação das espécies em campo. Existem evidências que O. rufipogon é mais abundantes em anos com cheias menores, enquanto O. latifolia torna-se mais abundante nos períodos de grandes cheias ao longo do rio Paraguai.

Oryza latifolia Desv.
Trata-se de uma espécie aquática nativa, perene, resistente as inundações, sendo relativamente pouco conhecido popularmente o uso dos seus grãos, pequenos e de cor vermelha, como alimento humano. Tem crescimento variável conforme a sazonalidade regional, podendo chegar a 6,5 m de comprimento durante as cheias; são bastante comuns em campos inundáveis no Pantanal, notadamente nas várzeas do rio Paraguai, nas regiões do Paraguai, Nabileque, Cáceres e Poconé. As comunidades ribeirinhas da região de Corumbá usam essa espécie de arroz como forrageira para  o gado, cavalos e porcos, sendo também consumida por porcos do mato, capivaras, cervos, várias espécies de aves, e alguns peixes, como o pacu e a piraputanga. e na região do Paraguai.

As primeiras inflorescências, que darão origem aos grãos,  aparecem no pico do período das cheias, aumentando bastante a área de cobertura da espécie; ao final das cheias, as plantas vão deitando conforme a água abaixa, e de cada nó do caule surge um ramo novo, que se fixará ao solo quando as águas baixarem completamente. Após o surgimento dos botões florais , em uma ou duas as primeiras flores abrirão, sendo o pólen transportado pelo vento de uma planta para outra. Os frutos aparecem entre abril e junho, variando conforme a intensidade e o pico do período seco.

Atualmente, os grãos do arroz nativo são utilizadas apenas por populações não indígenas nas comunidades da Barra do São Lourenço e do Castelo, que produzem cerca de 200kg de arroz por ano, com um rendimento aproximado de 1kg de arroz descascado para 3kg de arroz com casca. O arroz é comercializado, por meio de projetos extensão, principalmente para a comunidade universitária e para chefs de cozinha ligados ao movimento Slow Food, com preços relativamente elevados devido à baixa produção. O produto possui um sabor agradável, sendo uma excelente opção para risotos e saladas, com teor proteico e vitamínico maior do que as variedades de arroz integral encontradas no mercado. Pratos tradicionais da culinária pantaneira, como o carreteiro e a galinhada, podem ser elaborados usando o arroz nativo, adequando o tempo de cozimento em função do maior teor de fibra dos grãos. A coloração vermelha dos grãos dessa espécie ainda pode ser empregada como pigmento natural em corantes alimentícios. Além disso, O. latifolia tem sido empregada como um recurso genético para melhorar resistência ao estresse biótico e abiótico em lavouras convencionais de arroz (O. sativa).

Figura 01: (A) e (B) Oryza latifolia; (C) e (D) embalagens de arroz-nativo-do-Pantanal; (E) e (F) Oryza rufipogon.

A)

Fonte: https://images.app.goo.gl/ZnqHxR8zuWL5hi5UA

B)

  Fonte: https://images.app.goo.gl/W2whR29eE8EKcCUz5

C)


Fonte: https://images.app.goo.gl/Li8p4K3fLw19wams9

C)


Fonte: https://images.app.goo.gl/VupZN4Y7A1onn2CJ6

D)


Fonte: https://images.app.goo.gl/E7MxgaYwBq24tUHY9

E)


Fonte: https://images.app.goo.gl/2va7rq3rgpQccfNu9

Figura 01: (A) e (B) Oryza latifolia; (C) e (D) embalagens de arroz-nativo-do-Pantanal; (E) e (F)Oryza rufipogon.

Bibliografia consultada

Tralamazza, S. M., Piacentini, K. C., Savi, G. D., Carnielli-Queiroz, L., de Carvalho Fontes, L., Martins, C. S., … & Rocha, L. O. (2021). Wild rice (O. latifolia) from natural ecosystems in the Pantanal region of Brazil: host to Fusarium incarnatum-equiseti species complex and highly contaminated by zearalenone. International Journal of Food Microbiology345, 109127. Disponível em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0168160521000866?casa_token=UvC5kpaq0-oAAAAA:oa8kRKYjeRYEtFz2oPkH9n_4MeIqo-XrGz0fe3rrf3jMlJnl1JPbbEYUNYwA864pwAoUVqC3sL4

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