De Como Se Devasta um Éden

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Um testemunho sobre a destruição do Pantanal, por Araquém Alcântara

Em  setembro de 2020 eu vi a face do horror. Sob o céu alaranjado, tóxico, sufocante, em meio à fuligem onipresente, o fogo brotava por todos os lados na Transpantaneira. Eu vi animais desorientados, desnutridos, sedentos. Uma anta correndo. Macacos-prego assustados. Lontras buscando qualquer poça d’água na paisagem ressequida – ao redor, tudo chamuscado. Eu vi animais mutilados, animais com as patas queimadas, incapazes de fugir. Eu vi animais mortos. Muitos animais mortos: pássaros, jacarés, ariranhas, capivaras, cobras. Um veado catingueiro. Espalhadas sobre a terra arrasada, a perder de vista, eu vi as carcaças retorcidas de animais queimados vivos – espectros macabros deixados pela passagem avassaladora do fogo.Ao longo dos meus 50 anos de fotografia, dedicados integralmente à defesa do patrimônio natural brasileiro, nunca vi nada igual. Embora meu trabalho esteja voltado, sobretudo, à celebração da vida, em inúmeras ocasiões já retratei a destruição: o desmatamento, a mineração, os incêndios na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga. O que foi absolutamente novo, dessa vez, foi ver de perto a voracidade do fogo. Para citar apenas tres exemplos: na região da Serra do Amolar, um dos recantos mais exuberantes do planeta em termos de beleza cênica e biodiversidade, o fogo queimou mais de 90 por cento da área de 135 mil hectares do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e todos os 20 mil hectares da Fazenda Novos Dourados (dos quais mais da metade destinava-se à proteção ambiental) viraram cinza em cerca de 48 horas . No estado do Mato Grosso, mais de 80% da Terra Indígena Baía dos Guató, onde vivem os últimos remanescentes dos povos canoeiros originários do Pantanal, queimou completamente. Por onde passei, os focos se multiplicavam como se brotassem do chão. O vento levava faíscas e ateava novos incêndios adiante, enquanto os bombeiros e brigadistas heroicos, mas parcos e impotentes, cavavam aceiros, abafavam o fogo e manejavam o contrafogo, trabalhando dentro de uma fornalha – a mais de 40oC – em turnos que chegavam a 12 horas por dia.



Brasil – um braseiro. Nunca pensei que a etimologia do nosso nome fosse se realizar assim, tão literalmente. Tão tragicamente. Testemunhei 18 dias de uma agonia que se estendeu por mais de 3 meses. Ainda atônito, andando pela terra acinzentada, calcinada, eu pensava: “Como é que pode? Como podemos permitir que isso aconteça?”.E pensava também que o inferno pode se repetir no ano que vem, e pode se alastrar, tomar conta de vastas áreas do país, a reboque do embrutecimento e da ignorância que têm contaminado os debates públicos no Brasil. Não há dúvida: o principal combustível do fogo que destruiu mais de um quarto do Pantanal em 2020 foi a negligência humana. A estiagem foi severa, mas era prevista: políticas preventivas poderiam ter sido adotadas. A calamidade tem autoria e é preciso responsabilizar os culpados – o nome disso é ecocídio. E o pior: oficial, institucionalizado.

Semanas depois de ter visto a face do horror, ainda tenho a garganta atravessada por um misto de revolta e impotência.Seguirei extravasando esse grito nas minhas fotografias – a arte é minha frente de batalha, meu modo de lutar pela integridade dos biomas brasileiros. Acredito no poder regenerador da beleza. E seguirei celebrando a vida. Mais do que nunca é preciso cantar, de preferência juntos. É preciso reunir nossas vozes – e olhares – num coro que soe mais alto, bem mais alto, que as notas pesadas do réquiem pantaneiro.

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