Revista Ciência Pantanal lança sua sexta edição: revista visa divulgar o conhecimento científico sobre o Pantanal para os diversos públicos interessados na região.

0

Sandro Menezes Silva – UFGD/FCBA

No dia 12 de abril de 2021, por meio de uma live transmitida pelo canal do Youtube da WWF-Brasil, foi lançada a sexta edição da revista Ciência Pantanal, com a participação de três pesquisadores responsáveis por alguns dos artigos apresentados, pelo representante da WWF-Brasil, principal instituição apoiadora da iniciativa, e pela jornalista Liana John, editora executiva da revista.

            A publicação traz 13 artigos de divulgação científica sobre pesquisas em andamento na região, bastante explicativos e ricamente ilustrados,  nos quais houve a participação de 59 especialistas, de diversas instituições governamentais e não-governamentais, tanto do Brasil como de outros países.

            O Pantanal ganhou maior destaque na imprensa nacional e estrangeira a partir de setembro de 2019, e praticamente durante boa parte de 2020, quando incêndios de grandes extensões atingiram grande parte de seu território; estima-se que aproximadamente 30% da planície pantaneira foi queimada nesse período. Os artigos tratam de diferentes aspectos do Pantanal, e resultam de vários projetos de pesquisa que os autores vêm realizando na região nas últimas décadas, alguns dos quais já resultaram em ações de extensão e de educação ambiental que levaram aos diferentes públicos o que há de mais atual em termos de conhecimento científico sobre a região.

            A etnobotânica, ou seja, o estudo das plantas usadas pela espécie humana, é foco do primeiro artigo, no qual pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul fazem uma síntese das informações que reuniram em duas décadas de pesquisa na região, com ênfase para as espécies alimentícias, como as palmeiras bocaiuva e acuri, o arroz-nativo e as espécies frutíferas, como a Guavira e a laranjinha-de-pacu.

            O cavalo pantaneiro, raça crioula desenvolvida na região e que traz adaptações importantes para a vida nas águas, é tema do segundo artigo. Pesquisadores da EMBRAPA-Pantanal contam um pouco da história desse animal, suas principais adaptações e virtudes para a lida diária, com uma análise funcional do cavalo em relação à energia consumida na criação e produzida pelo trabalho executado. 

            Na sequência, há um extenso e interessante artigo sobre a jaguatirica, o terceiro maior felino do Brasil e um dos mais facilmente vistos no Pantanal, escrito por um grupo de pesquisadores de diversas instituições do Brasil. A jaguatirica pode ser confundida com um gato-do-mato, se for pequena, ou com uma onça-pintada, quando são maiores, pois todos são “gatos com pintas”. De tamanho intermediário entre os gatos, alimenta-se de pequenos mamíferos, aves, e répteis, e é a espécie de felino mais abundante tanto no Pantanal, como nos planaltos do entorno. Embora a presença de felinos maiores não afete a presença da jaguatirica, a sua presença pode influenciar as populações de gatos menores; este é um dos segredos do seu sucesso na região. Além de aspectos comportamentais e ecológicos das jaguatiricas, ainda é apresentada uma avaliação do estado de conservação da espécie, cuja densidade aproximada na região está entre 29 e 66 jaguatiricas a cada 100 km², condizente com a percepção de que há uma população grande dessa espécie no Pantanal. As principais presas da jaguatirica e seus aspectos sanitários também são abordados, num texto bastante informativo e interessante, que revela o quanto a pesquisa científica pode contribuir para a conservação de uma espécie, e por extensão, da região.

            Um artigo sobre as possibilidades de negócios sustentáveis no Pantanal, em grande parte potencializando iniciativas já existentes na região e práticas tradicionais das populações que estão lá há séculos, dá continuidade à revista, para então seguir um outro artigo contando como se deu o processo de construção do zoneamento ecológico-econômico de Campo Grande, que na parte noroeste de seu território tem área na bacia do Ceroula, pertencente à bacia do Alto Paraguai.

            O fogo é tema de outros dois artigos, um trazendo um diagnóstico do que foram os incêndios de 2019 e 2020 no Pantanal, suas causas e seus impactos sobre a biota e os ambientes pantaneiros, e outro sobre os impactos do fogo nas populações de araras-azuis na região, como parte dos trabalhos de pesquisa que o Instituto Arara Azul vem fazendo na região há mais de 30 anos. As informações apresentadas sobre os incêndios no Pantanal são estarrecedoras, e suas consequências sobre a biota ainda precisam ser melhor avaliadas. De qualquer forma, sabe-se quais fatores aumentam o risco de incêndios na região, quais as ações, preventivas e emergenciais, necessárias, e o que fazer para evitar ou minimizar essas ocorrências, já que tudo leva a crer que essa combinação de seca prolongada com temperaturas mais altas e aumento do uso intencional do fogo vai continuar. Vale destacar o trabalho relatado no artigo de brigadistas, pesquisadores, moradores e voluntários diversos no combate ao fogo e no atendimento aos animais, atingidos diretamente pelo fogo ou que vieram a sofrer as consequências posteriormente, com a falta de recursos alimentares e de água. O alerta foi dado, agora resta fazer diferente para não termos mais o Pantanal na mídia devido a um “desastre anunciado”. E as araras-azuis, apesar dos pesares, continuam firmes, resilientes, com o apoio das ações do Instituto Arara Azul, na construção e monitoramento de ninhos da espécie, na suplementação alimentar e no monitoramento das populações, que foram fundamentais para assegurar-se que a espécie conseguiu atravessar esse período difícil dos incêndios sem grandes prejuízos em termos de conservação.

            Na sequência, um artigo sobre as redes de interações entre animais polinizadores e as plantas que visitam mostra o quanto o Pantanal depende de sua estrutura em mosaico para manter sua funcionalidade, pois as espécies utilizam recursos florais diversos, em diferentes épocas, influenciados pelos ciclos de cheias e secas, com especificidades muito interessantes, e até então desconhecidas, quanto às interações polinizador-planta.

            Um artigo sobre tendências futuras de uso da terra no Pantanal, com base em cenários construídos a partir de variáveis ambientais conhecidas, aponta para um aumento substancial da perda de áreas naturais na região, notadamente no que foi chamado pelos autores de “Arco de perda de vegetação nativa do Pantanal”, que inclui principalmente as áreas mais altas da planície, livres das inundações menores, que fazem a transição para as áreas mais elevadas que delimitam a borda do planalto. Projetar tendências futuras com base em informações cientificamente obtidas é uma forma de planejar a ocupação do território atendendo à sua multiplicidade de usos, desde a conservação até as práticas mais desenvolvidas de produção agrossilvopastoril.

            Os peixes de Bonito são tema de outro artigo, que relatas as experiências e resultados de mais de 20 anos de pesquisa com esse grupo de animais na região da serra da Bodoquena, com descrição de novas espécies e comportamentos, listagens de espécies e trabalhos de divulgação e valorização desses animais para os visitantes que buscam os atrativos turísticos da região.

            A saúde dos animais silvestres no Pantanal é tema de outro artigo, resultante dos trabalhos de profissionais que coletaram mais de 200 espécies de parasitas de diversos grupos, somente em mamíferos na região, o que abre as possibilidades de mais pesquisas serem realizadas para avaliar a relação desses parasitas com as espécies domesticadas e como podem ser feias as ações de controle visando o bom estado sanitário dos animais.

            Um artigo sobre os mamíferos herbívoros na região da serra da Bodoquena, chamados de “sentinelas ambientais”, mostra que 23 espécies de pequenos, médios e grandes herbívoros, ocupando de forma diferenciada o mosaico de paisagens florestais, savânicas e campestres, e, portanto, respondem de forma diferenciada às alterações no porcentual de cobertura florestal que vêm ocorrendo na região nos últimos anos.

            O último artigo relata  redescobrimento de uma espécie de ave típica do Chaco, no sul do Pantanal, que há mais de 80 anos não era vista na natureza; trata-se da maria-preta-acinzentada, que após esse registro e sua divulgação, já foi avistada em outras regiões do Mato Grosso do Sul e no Paraná.

            A sexta edição da revista Ciência Pantanal, tal qual as edições anteriores, constitui um excelente material de divulgação científica, visando diferentes públicos e tomadores de decisão na região, pois é consenso entre todas as pessoas que se interessam pelo Pantanal que só a união dos saberes, a valorização da cultura e do conhecimento tradicional e a busca por respostas baseadas em Ciência para os grandes desafios regionais é o caminho para o seu desenvolvimento sustentável.

Para saber mais acesse:
https://www.wwf.org.br/informacoes/?77808/WWF-Brasil-lanca-revista-com-foco-no-Pantanal

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Documenta Pantanal
Proudly powered by WordPress | Theme: Shree Clean by Canyon Themes.