Duas espécies novas de peixes são descobertas na bacia do rio Taquari, no Mato Grosso do Sul

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Sandro Menezes Silva
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais

Uma publicação de 19 de abril próximo passado, dos Papéis Avulsos de Zoologia, do Museu de Zoologia da Universidade Estadual de São Paulo – USP, traz a descrição de duas espécies de peixes novas para a Ciência, que foram encontradas no rio Taquarizinho, tributário do rio Taquari, no município de Alcinópolis-MS. Trata-se de espécies aparentadas dos bagres, conhecidas popularmente como Candiru e Banjo, e ambas de pequeno porte, no máximo 3 cm; receberam os nomes científicos de Paracanthopoma saci e Ernstichthys taquari, respectivamente.

Embora uma das espécies descritas seja um Candiru, cujos parentes amazônicos são temidos por invadir os orifícios genitais de banhistas, a espécie encontrada na bacia do rio Taquari não oferece perigo, uma vez que, até hoje, não há registros de espécies desse gênero que tenham causado problemas aos humanos. Como todos os Candirus, é conhecido como um “peixe-vampiro”, pois se alimenta de sangue de outros peixes, por meio de ferimentos que faz nas brânquias dos seus hospedeiros. Os animais usados como base para a descrição foram capturados em bancos de areia no meio do rio, em locais sombreados pela mata ciliar, sem vegetação aquática, em profundidades que variam entre 30 e 150 cm. Parece ser uma espécie razoavelmente comum na área em que foi coletada, sendo a descrição da espécie feita com base em mais de uma dezena de animais. Seu nome científico foi dado em alusão à sigla do projeto que resultou na descoberta do primeiro exemplar da espécie (SACI – South American Characiform Inventory)  dirigida pelo pesquisador Naercio Aquino Menezes, do Museu de Zoologia da USP.

O Banjo alimenta-se basicamente de larvas de pequenos insetos que encontra no fundo dos rios; os exemplares que serviram de base para a descrição da nova espécie foram capturados em rio raso e de águas claras, com fluxo moderado de água, em substrato constituído por rocha e areia. A vegetação é formada por plantas aquáticas em alguns locais, com mata ciliar bem conservada, em ambiente sombreado. A espécie parece não ser abundante localmente, tendo em vista o pequeno número de indivíduos registrados até o momento nos estudos realizados. Seu nome científico faz alusão ao nome da bacia hidrográfica a que pertence o rio Taquarizinho, que na linguagem indígena significa “bambu pequeno, bambu fino”.

O que chama a atenção para esses registros, além do fato de serem novidades para a Ciência, é que são espécies endêmicas da bacia do rio Taquari, e seus parentes mais próximos são peixes amazônicos. No caso do Banjo, as espécies de seu gênero só são encontradas na bacia Amazônica, associadas a regiões de maior altitude, próximas aos Andes. Já o Candiru, do gênero Paracanthopoma, também só é encontrado na Amazônia. Os autores do artigo, pesquisadores da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e da Universidade de São Paulo (USP), acreditam que essas espécies provavelmente chegaram ao rio Taquari durante o processo de formação do Pantanal, em um evento geológico que resultou no afundamento da região. Devido a isso, os rios mudaram a direção principal dos seus cursos, e rios que antes drenavam para a bacia Amazônica, começaram a drenar para a bacia do Paraguai, carregando com eles alguns peixes amazônicos. A região de Alcinópolis está  muito próxima ao divisor de bacias, e, portanto, é bastante factível que essa hipótese explique a ocorrência desses animais nessa região, retratando um processo antigo da formação do Pantanal.

As espécies até agora são conhecidas apenas do rio Taquarizinho e precisam ser preservadas e valorizadas como elementos exclusivos da fauna do Mato Grosso do Sul, além de serem estudadas mais aprofundadamente em relação à sua distribuição geográfica e status de conservação, uma vez que o Candiru é incluído no artigos na categoria de ameaça  como “Dados Insuficientes”, e o Banjo como “Quase Ameaçado”, demandando atenção do ponto de vista dos fatores que ameaçam os rios nessa região da bacia do rio Taquari, como o assoreamento e a perda de vegetação ciliar.

O município de Alcinópolis destaca-se no cenário de conservação do Mato Grosso do Sul, pois tem sido nos últimos anos o município do Estado que recebe o maior valor em ICMS Ecológico, um tributo atrelado à presença de unidades de conservação e destinação adequada dos resíduos sólidos no município. Existem dois monumentos naturais municipais e um parque natural municipal no município, além de incluir parte do território de um parque estadual. No total, o município tem que juntos ajudam a proteger quase 40 mil hectares, quase 8% do município, de formações vegetacionais florestais, savânicas e campestres, além de uma rica fauna representativa do Cerrado brasileiro. A conservação das matas ciliares, evidenciadas no artigo como parte dos ambientes ripários em que as espécies foram descobertas, é fundamental para a manutenção dessas e de outras espécies animais que compartilham esse tipo de rio na região, além de contribuírem para o provimento de diversos serviços ecossistêmicos de grande valor para a espécie humana.

Para saber mais, acesse o artigo na íntegra em https://www.revistas.usp.br/paz/article/view/183301

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