Um peixe que emprestou seu nome à planta: o Cipó de Arraia

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Isamara Carvalho Ferreira e Sandro Menezes Silva
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD 
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais – FCBA

A fauna de peixes do Pantanal conta com cerca de 270 espécies registradas, o que constitui um atrativo importante para atividades pesqueiras, tradicional, comercial e esportiva. Dentre as espécies de peixes mais conhecidas estão as Arraias, que na bacia do Alto Paraguai, onde se localiza o Pantanal, são representadas por cinco espécies: Potamotrygon motoro (Müller & Henle, 1841), Potamotrygon falkneri Castex & Maciel, 1963, Potamotrygon brachyura (Günther, 1980), Potamotrygon pantanensis Loboda & Carvalho, 2013 e Potamotrygon amandae Loboda & Carvalho, 2013.

Parentes dos tubarões, esses animais ocorrem no fundo de rios, muitas vezes escondidas nos sedimentos, vazantes, corixos e baías, e alimentam-se de pequenos peixes, crustáceos e moluscos; possuem de um a quatro ferrões cobertos por muco venenoso na cauda, que causam lesões dolorosas e inflamação intensa, que podem progredir para úlceras e necroses que demoram a cicatrizar. Isso geralmente ocorre quando a pessoa está caminhando em águas rasas e, inadvertidamente, aproxima-se demais ou toca no animal, que, em uma manobra puramente defensiva, injeta os ferrões nesse indivíduo.

Foto: Luciano Candisani

Como muitas localidades no Pantanal estão distantes e isoladas dos centros urbanos, é bastante comum o uso de espécies vegetais para tratamento de diversos problemas de saúde, e com as ferroadas de arraia não é diferente. Para as ferroadas de arraias, é bastante conhecido o uso dos Cipós de Arraia, plantas trepadeiras bastante comuns em diversos tipos de vegetação do Pantanal. Essas espécies são da família Vitaceae, e do gênero Cissus, o maior da família. Nessa família, na qual também estão incluídas as espécies de Uva, existem 14 gêneros e cerca de 900 espécies, sendo o gênero Cissus o maior da família, com cerca de 350 espécies distribuídas pela África, Américas, sul da Ásia, Austrália, e Nova Guiné. No Pantanal são registradas quatro espécies: Cissus spinosa Cambess., Cissus verticillata (L.) Nicolson & C.E.Jarvis, Cissus campestris var. warmingii (Baker) Planch e Cissus erosa (L.) Rich. Conhecidas como Cipós de Arraia, são duas espécies: C. spinosa e C. erosa, descritas abaixo:

Cissus spinosa Cambess.

Planta trepadeira dotada de gavinhas e acúleos, com inflorescência vermelha e fruto negro na maturação, ambos disponíveis em julho. Seus frutos servem como alimento para peixes como o pacu, e o macerado de suas folhas e caules é utilizado externamente nas lesões causadas pelas arraias.

Ocorre em diferentes fisionomias de vegetação inundáveis, sendo bastante comum nos Espinheirais, formações arbustivas constituídas por espécies dotadas de espinhos e acúleos que ocorrem próximas aos rios, e nas florestas ciliares, junto de plantas herbáceas e arbustos nos locais mais abertos e expostos. 

Cissus erosa (L.) Rich.

Planta trepadeira de flores vermelhas externamente e laranjas internamente, que podem ser vistas de outubro a junho, com frutos disponíveis entre dezembro e junho. Também conhecida popularmente como Cipó-fogo, pode ser encontrada em campos, cerrados, bordas de florestas e áreas com vegetação secundária.

Apesar das espécies do gênero não possuírem significativa importância econômica, algumas são utilizadas na medicina popular. Existem diversos relatos na literatura científica sobre os usos das espécies do gênero Cissus; são descritas propriedades antipiréticas, antirreumáticas, analgésicas, antiepilépticas, diuréticas, antinflamatórias, antioxidantes, neuroprotetoras, hipoglicêmicas, antifúngicas e antivirais, com indicações para tratamento de leishmaniose, de doenças renais e respiratórias, diabetes e, em uso externo, para tratamento de verrugas e úlceras.

Nas espécies de Cipó de Arraia, há, para C. spinosa, relatos de ocorrência de alcaloides, flavonoides, taninos, esteróides e fenóis, sendo detectadas ações antioxidante, hipoglicêmica e antilipêmica (redução nos triglicerídeos do plasma sanguíneo); já em C. erosa foi detectada ação contra Dengue e Zika. Isso demonstra o grande potencial que as espécies de plantas do Pantanal têm para descobertas científicas, especialmente relacionadas aos seus usos e propriedades, sendo fundamental para isso a conservação da região e o incentivo à pesquisa científica e ao resgate do conhecimento popular.

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