Para tudo! Você ainda não conhece o Paratudo?

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Sandro Menezes Silva e Isamara Carvalho Ferreira
Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD
Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais – FCBA

Os viajantes que seguem pela rodovia BR-262, entre Miranda e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, durante os meses de agosto e setembro, certamente já perceberam diversas árvores de porte mediano, entre cinco e 15 metros de altura, com casca grossa, quase sem folhas, porém cobertas de flores de um amarelo intenso, que em muitas partes do Brasil são conhecidas como Ipês-amarelos. No Pantanal, essas árvores são conhecidas como Paratudo, e cientificamente são denominadas de Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook. f. ex S. Moore., da família das Bignoniáceas. Essa família de plantas inclui diversas outras espécies conhecidas no Pantanal, como as Piúvas e o Cipó-de-São-João. Essa espécie ainda ocorre no Cerrado, nas Savanas Amazônicas, na Caatinga e nas Florestas Secas interiores, das Guianas até o Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, entrando na Argentina, Paraguai e Bolívia.

Quando estão sem flores, os Paratudos assumem um aspecto verde-acinzentado, decorrente da coloração de suas folhas, classificadas morfologicamente pelos Botânicos como “compostas, digitadas e opostas”. Certamente quem passa pelo Pantanal nessa região, independente da época, percebe a presença maciça dessas árvores, em uma paisagem conhecida como “Paratudal”; são bastante típicos das regiões do Abobral, do Miranda e do Nabileque, nos municípios de Miranda, Aquidauana, Corumbá e Porto Murtinho. A fisionomia dos Paratudais, formada por árvores agrupadas em pequenas “ilhas”, entremeadas por vegetação aberta graminóide, caracteriza o que na literatura fitogeográfica é denominada de Savana Parque. O Paratudo é uma das espécies que, no Pantanal, constitui formações vegetacionais monodominantes (formas de vegetação em que mais de 50% dos indivíduos pertencem a uma espécie), especialmente no sul do Pantanal; no norte é mais comum a ocorrência dessa espécie em formações mais heterogêneas, sobre solos melhor drenados, como na beira de capões e cordilheiras, com vegetação savânica.

Foto : João da Rocha Musegante

Levantamentos da flora associada aos Paratudais no Pantanal mostraram que a espécie chega a somar entre 75 e 78% do total de indivíduos lenhosos, variando o número total de  espécies de plantas associadas, conforme o método e a intensidade amostral nos diferentes locais em que foram estudados. Considerando somente as espécies lenhosas, árvores e arbustos, esse número varia de oito a 13 espécies, chegando a 36 espécies no estudo ecológico mais amplo realizado em Paratudais no Pantanal até então, por pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS. Considerando todas as formas de vida, esses pesquisadores encontraram 88 espécies, número bastante superior ao que havia registro até então em outros Paratudais, que era de 22 espécies.

Os Paratudais são resultantes da interação entre características topográficas, de suscetibilidade à inundação e de regime do fogo, sendo o pulso de inundação um filtro ecológico importante para as espécies vegetais no Pantanal, condicionando a ocorrência de espécies mais ou menos tolerantes ao alagamento, processo que pode ser rápido e com água corrente, ou prolongado e com água parada. O fogo é um fator importante nas regiões tropicais, especialmente nas savanas, uma vez que limita a ocorrência de espécies, notadamente aquelas típicas de formações florestais, sendo a resistência das espécies vegetais ao fogo condicionada à frequência, intensidade e severidade de ocorrência. O Paratudo tem vantagem na combinação entre inundação e fogo, quando comparado às outras espécies com as quais compartilha os Paratudais; associado a esses fatores, há o fato de grande parte dos indivíduos de Paratudo ocorrerem sobre pequenas elevações do terreno construídas por cupins ou formigas, os conhecidos “murundus”, parecendo que encontraram nesses microambientes as condições ideais para tornarem-se e manterem-se como espécies dominantes.

A riqueza de espécies de plantas nos Paratudais diminui quando ocorre a combinação entre alta ou média frequência de incêndios e altos níveis de inundação; em locais com maior frequência de incêndios e níveis mais baixos de inundação, a riqueza de espécies é alta, mas as maiores riquezas de espécies são registrados em locais com baixa frequência de incêndios e altos níveis de inundação. Assim, os Paratudais com maior diversidade vegetal são aqueles em locais sujeitos ao maior nível de inundação e com menor frequência de incêndios. A interação entre fogo e regime de inundações fazem do Paratudo uma espécie dominante em algumas comunidades, principalmente devido ao grande número de indivíduos estabelecidos sobre os murundus. Esses indivíduos podem sobreviver a altos níveis de inundações e eventos recorrentes de fogo, enquanto outras espécies, lenhosas ou herbáceas, não toleram um ou esses dois filtros ecológicos.

Os Paratudais tendem a manterem-se como formações vegetacionais monodominantes, condicionados à combinação desses dois filtros ambientais no Pantanal, fogo e regime de inundação. Alterações nesses filtros, como inundações mais prolongadas, alta frequência de incêndios ou não ocorrência de fogo, podem levar a mudanças na estrutura desse tipo de vegetação, alterando a dominância da espécie.

O Paratudo é considerado um excelente remédio pelo pantaneiro, reputado principalmente para problemas de fígado, estômago, verminoses, amarelão, diabetes e malária. As cascas da árvore podem ser mascadas, com gosto bastante amargo, ou então infusionadas em água fria e bebida junto com o tereré, bebida a base de erva mate típica do Pantanal. Estudos fitoquímicos realizados com o Paratudo mostraram que a planta possui substâncias com atividade antimicrobiana e antifúngica, além de propriedades antinflamatórias. Embora a madeira dos ipês seja, em geral, bastante procurada devido à sua resistência, no Pantanal não é usual o emprego da madeira do Paratudo, ao contrário do que ocorre com outro ipê comum no Pantanal, a Piúva-roxa, usada em marcenaria e carpintaria. A árvore tem grande potencial ornamental, sendo facilmente reproduzida a partir das abundantes sementes que são produzidas entre outubro e dezembro. A planta é pioneira, e desenvolve-se bem a luz plena, sendo indicada para projetos de restauração ambiental no Cerrado e no Pantanal. Existem relatos na literatura científica de várias espécies de aves, notadamente do grupo dos Psitacídeos (periquitos, maracanãs, papagaios e araras), consumindo as flores de Paratudo, porém sem que sejam polinizadores; apenas usam a flor como alimento, de forma destrutiva, valendo-se do néctar que fica acumulado no fundo do tubo que forma as flores.

Foto de Capa: Naty We

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